(ECO) Numa economia em crise, já nem as kinguilas têm dólares

(ECO) Kinguilas, roboteiros ou zungueiros. São os vários nomes dados às vendedoras de moedas nas ruas de Luanda. Um negócio que já não é rentável pela escassez de kwanzas e dólares neste mercado paralelo.

Kinguilas, roboteiros ou zungueiros. São nomes diferentes para identificar o mesmo: são pessoas que se dedicam ao negócio das moedas na rua, o chamado mercado informal. Em Angola, com o país em crise devido à queda do petróleo que fez afundar a economia, arrasando o valor da divisa do país, o kwanza, o negócio das kinguilas prosperou: o dólar chegou a valer quase quatro vezes mais que a divisa angolana nas ruas. Mas já nem o mercado negro consegue resistir. Não há dólares, nem kwanzas, reflexo das restrições de capital.

Angola é um dos países fortemente dependentes da evolução do petróleo. O “ouro negro” corresponde a 30% do PIB, a 50% das receitas públicas e 95% das exportações totais. Por isso, a quebra dos preços da matéria-prima para os 50 dólares acabou por pressionar a economia, arrastando a moeda nacional para mínimos. O Banco Nacional de Angola (BNA) permitiu que a divisa desvalorizasse perto de 20% face ao dólar nos últimos 12 meses. Neste momento, são precisos 166 kwanzas para comprar um dólar, segundo a taxa de câmbio oficial. E é possível que esta desvalorização continue, sobretudo depois das eleições de 23 de agosto.

Precisa de 166 kwanzas para comprar um dólar

O governador do Banco Nacional de Angola garantiu que o banco central não vai considerar desvalorizar ainda mais a divisa ou fazer alterações ao regime cambial. Segundo a Reuters, Valter Filipe disse que a estabilidade do sistema financeiro depende do controlo das taxas de juro e do abrandamento da inflação, que acelerou mais de 40%. E condena o mercado paralelo de venda de dinheiro, feito pelas kinguilas. Não podemos ter, no nosso país, determinadas ruas que definem a referência do preço, onde se vendem dólares ou euros. Não podemos ter este nível de fluxo financeiro no mercado informal, que tem um grande impacto sobre o sistema financeiro.”

Não podemos ter, no nosso país, determinadas ruas que definem a referência do preço, onde se vendem dólares ou euros. Não podemos ter este nível de fluxo financeiro no mercado informal, que tem um grande impacto sobre o sistema financeiro.

Valter Filipe

Governador do Banco Nacional de Angola

Há um mercado de venda de dinheiro, que acontece em plena luz do dia nas ruas de Angola e que ganhou força à medida que o kwanza perdeu o brilho. No mercado paralelo, são necessários 390 kwanzas para comprar um dólar. A moeda norte-americana está, por isso, a ser “transacionada” ao dobro da taxa de câmbio oficial. Isto num cenário em que as casas de câmbio praticamente não vendem dólares e o envio de remessas para o estrangeiro por transferência bancária apresenta vários constrangimentos, nomeadamente atrasados nas autorizações do BNA.

Na origem das dificuldades está a crise económica, financeira e cambial que afeta Angola, provocada pela quebra na cotação do barril de crude no mercado internacional, o que fez reduzir para menos de metade as receitas fiscais com a exportação de petróleo. Como consequência, os dólares começaram a desaparecer. Em novembro, obanco central começou a limitar o acesso aos dólares, restringindo o montante que disponibilizava aos bancos comerciais.

Sem dólares, os bancos comerciais começaram a limitar os levantamentos ao balcão, mesmo de contas em moeda estrangeira, tornado o mercado de rua como única alternativa. Mas nem este negócio das kinguilas é tão rentável como antes. Não há kwanzas nem dólares nas ruas, atirando estas cambistas do mercado negro para outros negócios obscuros. E a cotação não oficial está estabilizada. As taxas de câmbio tocaram quase os 600 kwanzas por cada dólar em agosto e julho do ano passado, depois de máximos de 630 kwanzas em junho, face à falta de dólares nos bancos. Agora estão a a pouco mais de metade.