(JE) Escalada do euro dá mais dores de cabeça a Draghi

(JE) O dólar cai a reboque da crescente tensão na Península coreana, enquanto as negociações do Brexit continuam a penalizar a libra. A conjuntura beneficia a moeda única, numa altura de expetativa em relação aos discursos de Janet Yellen, da Reserva Federal norte-americana, e de Mario Draghi, do Banco Central Europeu no simpósio económico Jackson Hole, sexta-feira.

O valor da moeda europeia continua a subir, a beneficiar do crescente receio no mercado cambial em relação às pares norte-americana e britânica. No entanto, a apreciação do euro poderá estar a tornar-se uma preocupação cada vez maior para o presidente do Banco Central Europeu (BCE).

Os investidores estarão atentos às duas intervenções de Mario Draghi esta semana, depois de este já ter mostrado preocupações em relação às possíveis consequências da valorização do euro. O banqueiro central irá discursar esta quarta-feira de manhã em Lindaus, na Alemanha, e sexta-feira à tarde, no simpósio económico em Jackson Hole, nos EUA.

O euro acumula já uma valorização superior a 12% em relação ao dólar em 2017, tendo negociado esta segunda-feira próximo dos 1,180 dólares. A moeda norte-americana está a ser castigada pela política doméstica e internacional dos EUA.

Por um lado, os exércitos da Coreia do Sul e dos EUA iniciaram esta segunda-feira manobras militares, apesar da recente escalada de tensão entre Pyongyang e Washington. Por outro, Donald Trump afastou o seu principal conselheiro, Steve Bannon, aumentado as dúvidas sobre a estabilidade na Casa Branca.

Já em relação à libra, o ganho desde o início do ano ultrapassa os 7%, a negociar próximo de 0,915. A paridade está a ser influenciada esta semana pelo início de uma nova ronda de negociações entre o Reino Unido e a União Europeia. Os mercados continuam à espera que primeira-ministra Theresa May revele a proposta britânica em relação aos cidadãos europeus em território britânico, à fatura a pagar pela saída do bloco europeu e à questão da fronteira irlandesa.

BCE começa discussões sobre o fim dos estímulos preocupado com a moeda

Na semana passada, as minutas da última reunião de política monetária do BCE sinalizaram apreensão pela possibilidade da valorização do euro no futuro ter impacto na inflação. “Embora tenha sido observado que a valorização do euro até à data pode ser vista em parte como um reflexo das mudanças nos fundamentais da zona euro em relação ao resto do mundo, foram expressas preocupações sobre o risco da taxa de câmbio ter aumentos significativos no futuro “, revelou o relato.

Um euro demasiado forte poderá prejudicar os esforços para restabelecer a estabilidade de preços na zona euro e esse foi um dos pontos discutido pelo Conselho de Governadores, em junho. O euro é um dos desafios que o BCE enfrenta ao discutir a possibilidade de um abandono gradual dos estímulos monetários, uma conversa marcada, segundo o banco central, para o outono.

Com a retoma de economia europeia a consolidar-se, a trajetória da inflação tem sido uma das preocupações de Draghi. O índice de preços no consumidor voltou a desacelerar em julho para 1,3%, face à meta do BCE de uma inflação próxima, mas abaixo de 2%, o que deu levantou dúvidas aos membros do BCE se a tendência ascendente é sustentada.

Dada a conjuntura, existe a expetativa que Draghi dê alguma indicação sobre o assunto. No entanto, o BCE já fez saber que a intervenção do banqueiro central se vai focar no tema do simpósio: Promover uma Dinâmica Económica Global.

“Ele não vai dizer nada”, defendeu o estrategista-chefe de câmbio na BNY Mellon, à CNBC. Segundo Simon Derrick, Draghi poderá ser mais cauteloso depois de o euro ter registado a maior subida do ano, quando disse em junho, em Sintra, que ia acompanhar a retoma da economia da zona euro para “ajustar” de forma gradual o programa de compra de ativos.

O presidente do BCE poderá, por isso, tentar evitar uma reação semelhante. “Penso que, infelizmente, é possível que isso alimente a força do euro, mas acho que o mercado tem que estar ciente de que [o Conselho de Governadores do BCE] realmente não quer isso. Portanto, se começarmos a ver um euro que avance para 1,19 ou 1,20 dólares, isso vai mudar as expetativas sobre o que vão fazer na próxima reunião”, acrescentou.