(JE) Um tipo diferente de crédito – Filipe Alves

(JE) 1. A crise que o setor da comunicação social atravessa deve preocupar todos aqueles que defendem a democracia e a liberdade.

Sem uma comunicação social forte e financeiramente sustentável, a qualidade da democracia fica em causa. Todos perdemos se não existir um jornalismo independente que escrutine os poderes políticos, económicos, sociais e religiosos. E perdemos porque o escrutínio mediático é essencial para que exista uma governação transparente. Sem essa transparência, grassa a corrupção e a má gestão passa despercebida. As trevas são inimigas da luz. A opacidade é inimiga da clareza. A desonestidade é inimiga da lisura. E o jornalismo livre e honesto  é essencial para que haja luz, clareza e lisura.

Mas, embora tal possa parecer paradoxal, a crise dos media é também uma oportunidade para reafirmar os valores e os princípios do jornalismo. Porquê? Porque os cidadãos continuam a precisar de marcas de informação credíveis, em que possam confiar. Muitas pessoas podem não estar dispostas a pagar por essa informação validada pelo jornalismo profissional, mas continuam a não prescindir dela. Pois no oceano de fake news e contra-informação em que vivemos, o bom jornalismo é como um farol que nos orienta e ajuda a pensar pela nossa cabeça. O bom jornalismo não  nos diz o que pensar; pelo contrário, ajuda-nos a pensar. Por isso faz falta e fazer falta é a primeira condição para que um dia seja possível reinventar o seu modelo de negócio. No fim do dia, os meios que sobreviverem à brutal fase de transição que o setor atravessa serão aqueles que conseguirem conquistar e preservar a confiança do seu público. O que vai salvar as empresas de comunicação social será um tipo diferente de crédito: não o dos bancos, como sucedeu nas últimas décadas, mas antes o crédito que os seus leitores e telespectadores lhes atribuem.

2. Numa altura em que decorrem as negociações para o Orçamento do Estado para 2018, a Confederação Empresarial de Portugal (CIP) divulgou ontem um conjunto de 14 propostas para o próximo ano. Em traços gerais, os patrões defendem que a tributação sobre as empresas não deve ser agravada e que não devem ser criados novos impostos ou taxas que afetem as empresas.

A confederação liderada por António Saraiva defende que o OE2018 deve retomar o calendário de redução da taxa de IRC, dos atuais 21% para 19%. Recorde-se que esta descida estava prevista no acordo que o PSD e o PS firmaram em 2014 para a redução gradual da taxa de IRC, numa altura em que a “geringonça” ainda não tinha nascido.

Não é difícil concordar, em termos genéricos, com as propostas da CIP. São as empresas que criam emprego. São as empresas que exportam. São as empresas que inovam. Se de facto é possível reduzir a carga fiscal que os portugueses suportam, as empresas não devem ficar de fora desse alívio.

Mas mais importante que a descida da taxa é a existência de previsibilidade fiscal. É mostrar aos investidores que compensa investir em Portugal em 2018 porque não terão surpresas em 2019. É apresentar ao mundo um país estável, com regras simples, previsíveis e bem definidas, onde seja fácil investir e desinvestir.

Portugal tem de ser atrativo e seguro para quem investe, pela simples razão de que precisamos de capital como de pão para a boca. A economia não vai crescer para sempre e temos de aproveitar esta bonança para pôr a casa em ordem, desalavancar o país e fazer as reformas necessárias para que Portugal seja um país mais competitivo. Não se trata de ser esquerda ou de direita, de ser estatista ou liberal, mas sim de ser realista.