(JN) Marques Mendes: Centeno teve “uma derrota pesada. Vai ter de ficar e contrariado”

(JN)

As notas da semana de Marques Mendes no seu habitual comentário na SIC. Marques Mendes fala sobre a greve dos motoristas, a gestão da polémica das golas e as suas consequências, a “corrida” de Centeno para o FMI e o seu afastamento, entre outras questões.476Assine 1mês/1€Ler mais tardeImprimir

A GREVE DOS CAMIONISTAS AVANÇA MESMO?

Amanhã haverá uma reunião decisiva e depois se verá se a greve avança mesmo. Dois cenários são possíveis:

  1. Cenário A: a greve vai por diante. Neste caso, os sindicatos correm o risco de uma derrota pesada. Nada será igual à greve da Páscoa.

Primeiro: na greve da Páscoa tiveram a simpatia da população. Agora não. Ninguém compreende que se faça uma greve em 2019 para exigir aumentos salariais de 2021/2022.

Segundo: na greve da Páscoa houve serviços mínimos, muito mínimos. Agora não. O Governo vai fixar serviços mínimos bem alargados. E, se não forem cumpridos, faz a requisição civil.

Terceiro: na greve da Páscoa o Governo foi apanhado desprevenido. Agora não. O sindicato vai confrontar-se com uma manifestação de força por parte do Governo, através de uma fortíssima mobilização das Forças Armadas e das Forças de Segurança.

O Governo quer mostrar autoridade. Terá uma resposta musculada. Como fez na Crise dos Professores. Mais do que uma questão laboral ou sindical, o Governo quer fazer desta greve uma questão política, para mostrar força e autoridade, a pensar nas eleições.

  1. Cenário B: os sindicatos desconvocam a greve. É o cenário mais inteligente. Não perdem nada, agora. E podem ganhar no futuro. Ou nas negociações ou numa greve mais tarde. Amanhã veremos se ganha a inteligência ou a teimosia. 

SECRETÁRIO DE ESTADO DA PROTECÇÃO CIVIL DEVIA DEMITIR-SE?

O Secretário de Estado da Protecção Civil devia demitir-se. Ou então devia ser demitido.
Primeiro: pelas contradições
 – Perante a polémica das golas, apressou-se a dizer que não era nada com ele, mas sim com a Protecção Civil. Afinal, veio depois a saber-se que já há um ano sabia de tudo!
Segundo: pela responsabilidade política – Um seu adjunto influenciou a escolha das empresas a contratar e demitiu-se. O Secretário de Estado devia ter feito o mesmo. Devia ter assumido a responsabilidade política. Os Adjuntos não agem por conta própria.
Finalmente: devia sair porque perdeu autoridade. A partir de agora não é o mesmo. Está inibido e condicionado. Não tem a mesma autoridade que tinha antes. Veja-se que esta semana, apesar de tantos incêndios, não apareceu em público uma única vez.


GOVERNO PEDE PARECER À PGR
Entretanto, constatou-se que vários governantes teriam problemas com a chamada lei das incompatibilidades, o que poderia levar à sua demissão. O PM, discordando desta interpretação, pediu um parecer ao CC da PGR.
O que dizer de tudo isto?

Primeiro: que esta lei, neste particular, é um exagero e até um absurdo
. Mesmo assim, lei é lei e está em vigor há mais de 20 anos.

Segundo: o pedido de parecer do PM é uma habilidade. Um truque. O objectivo do pedido não é esclarecer. É comprar tempo. É adiar o assunto até às eleições para que ninguém se demita nem tenha de ser demitido.


Terceiro: este pedido é arma de dois gumes – se a PGR quiser ser simpática e agradar ao Governo, o parecer pedido só chega lá para o fim de Setembro ou início de Outubro, 
em cima de eleições, para não ter consequências. Mas, se o parecer chegar antes e confirmar a ideia de demissões, então o PM pode ter um problema sério, em Setembro, em plena campanha eleitoral.
A gestão política do Governo neste processo continua a ser desastrosa. Já são duas semanas seguidas a dar tiros nos pés. A sorte de António Costa é mesmo não ter oposição. Mesmo assim, não há erros “grátis”. Estes erros têm consequências sérias:

Primeiro
, geram forte desgaste no Governo;

Depois
dão força aos parceiros do PS, em especial ao Bloco de Esquerda (uma sondagem desta semana já lhe dava quase 15%);

Finalmente, afastam o PS da maioria absoluta
. Deste modo, o PS fica mais longe da maioria absoluta.

CENTENO E O FMI

  1. António Costa ganhou. Nunca quis Centeno no FMI. Apoiava porque tinha de apoiar mas nunca se entusiasmou com a ideia. Precisava dele no Governo e no Eurogrupo. Conseguiu o que queria!!
  1. Mário Centeno perdeu. Nesta última semana deixou demasiado claro que queria muito sair de Portugal e ir para o FMI. É uma derrota pesada. Vai ter de ficar e ficar contrariado.

Centeno, a partir de agora, faz lembrar aqueles jogadores de futebol que querem sair de Portugal para o estrangeiro, não conseguem a transferência e depois ficam a jogar contrariados cá dentro. Ou seja: não está de alma e coração com o Governo.

  1. Este é o primeiro grande erro de Centeno. O segundo grande erro é o ter desistido da ideia de ser Comissário Europeu. Daqui a uns dois anos, Centeno vai perceber que não devia ter perdido a oportunidade de ir para a Comissão Europeia. Agora, saía em grande. Mais tarde não se sabe. É um erro enorme que com o tempo ele compreenderá melhor!

LISTA DE DEPUTADOS DO PSD

Em termos de balanço final, poderá dizer-se: Rio ganhou no Conselho Nacional; perdeu no país; e deu uma grande ajuda a Luís Montenegro.
Primeiro: ganhou no Conselho Nacional. Era expectável que ganhasse
. Nunca nenhum líder perdeu uma votação no Conselho Nacional. Muito menos quando se trata da “mercearia” política.
Segundo: perdeu no país. O ruído, a divisão e a balbúrdia deste processo só prejudicam Rui Rio. Ninguém gosta de votar num partido dividido e num líder contestadoAgora até contestado pelos seus apoiantes.
Terceiro: o grande beneficiário deste processo é Luís Montenegro, o potencial sucessor de Rio. Sem ter feito nada e sem sequer abrir a boca.


É que todos os descontentes deste processo
 vão engrossar a partir de agora os apoios a Luís Montenegro. É sempre assim.

BES – 5 ANOS DEPOIS – ALGUÉM CONDENADO?

  1. A resolução do BES foi há 5 anos (feitos ontem). 5 anos depois, em termos criminais, está tudo na mesma. Isto é inacreditável.
  1. Passaram 5 anos. Todos estes anos o NB deu milhões de euros de prejuízos. Este primeiro semestre foram mais 450 milhões. Ao longo destes 5 anos o Estado e o Fundo de Resolução já injectaram no NB cerca de 10 mil milhões de euros. Houve muita gente que perdeu dinheiro com a falência do BES. E, perante isto, pergunta-se: ninguém é acusado, ninguém é condenado, ninguém é responsabilizado? Nem Ricardo Salgado, nem ninguém? Isto é inacreditável. Depois, queixem-se que os cidadãos não acreditam na justiça!
  1. Finalmente, é inacreditável que o Director do DCIAP tenha decidido que a investigação só termina 3 meses depois de chegarem informações pedidas às autoridades suíças.
  • E se os suíços demorarem 10 anos a responder? Vamos estar 10 anos e 3 meses à espera? Um absurdo.
  • E se os suíços não derem resposta nunca? A investigação fica eternamente em aberto? Um absurdo ainda maior.