(DN) A capa do racismo – José Kaliengue


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Nesta semana ouvi muita coisa sem sentido por causa da atuação da Polícia de Segurança Pública portuguesa sobre cidadãos angolanos no bairro da Jamaica, no distrito de Setúbal. Vi o vídeo e pensei em desacatos, apesar de o direito à indignação ser um inalienável quando os nossos direitos são violados. E reagir à pedrada contra a polícia? Não me parece correto.

Entretanto, por cá, em Angola, começaram a correr vídeos e áudios de pseudorreportagens feitas por angolanos (alguns jornalistas e apresentadores angolanos coincidentemente estavam por Lisboa), quase todas mais interessadas em denunciar um suposto ato racista da PSP do que em narrar os factos. E houve portugueses também que se alinharam. Normal, depois do fracasso das manifestações dos coletes amarelos portugueses. Há gente a precisar desesperadamente de uma razão para sair à rua e incendiar contentores, carros e partir montras.

Voltei a ouvir alguns áudios e percebi que tudo tinha tido início em cuecas que não gostam de ficar no lugar, caem, com homens ou com mulheres já comprometidos, e, obviamente, isto às vezes dá em confusão. Então passou-se de um assunto de cuecas, de meninas acusadas de andarem a colher em ceara alheia, e transformou-se num caso de racismo com apelos à retaliação angolana e a uma tomada de posição firme por parte do Estado angolano.

“Vivi em Lisboa muitos anos, sei bem como os tugas reagem ao negro, sobretudo ao mais desfavorecido, e sei bem como o negro reage a quase tudo o que não o favorece na relação com o outro: é racismo.”

Liguei a um membro do governo angolano para confirmar se tinha havido mesmo uma carta de protesto como até a imprensa oficial (do Estado) tinha noticiado. Bem, alguns colegas agiram emocionados, como se diz por cá. O alto responsável limitou-se a dizer que “a maka não é nossa, e muito menos os desacatos que estão sendo feitos, nem sabemos se são mesmo angolanos os que agora andam a fazer confusão”.

Posição acertada, a do Estado angolano, não é necessário arranjar mais makas numa relação tipo amor à italiana nos filmes de Ettore Scola. Há demasiada adrenalina.

A coisa é simples: Portugal ainda não conseguiu uma forma de inserção social das comunidades das ex-colónias. Há aqui algum “irritante racista”? Talvez sim. Digamos que uma “falta de vontade racista sem querer”, sobretudo para os mais pobres, porque os abastados, pelo menos de frente, “não são assim tão negros”. Talvez até seja mais uma questão de cultura, de encontro de hábitos e de costumes, porque ainda persiste a lógica do assimilacionismo em ambas as partes. É coisa muito forte. Aliás, entre negros em Angola este é um problema enorme que cria uma barreira que não se quer discutir. E em Portugal há também portugueses por assimilar.

Vivi em Lisboa muitos anos, sei bem como os tugas reagem ao negro, sobretudo ao mais desfavorecido, e sei bem como o negro reage a quase tudo o que não o favorece na relação com o outro: é racismo. Esta fórmula tem sempre um efeito psicológico importante, vantajoso. Quase que me atreveria a dizer que se tem em Portugal algumas pessoas racistas, num Estado que não quer ser racista, e pessoas que precisam de sofrer racismo para se fazerem ouvir. E todos, ao mesmo tempo, sabem que nada disso lhes resolve a vida.

Diretor do jornal angolano O País