(PUB) Um elogio dos alemães – Miguel Esteves Cardoso

(PUB) Os espanhóis que cá vêm tratam-nos de igual para igual. Os americanos são infantis mas são bem-educados. Só os alemães nos tratam com sobranceria como se tivéssemos sido criados para servi-los.

Chega um alemão da minha idade à esplanada onde estou a almoçar. Aponta para uma mesa e diz “three!”, em inglês contrariado. Não diz “boa tarde” nem “se faz favor”, nem sequer “please”. Não diz “table for three”. Só “three!”. Na véspera tinha reparado como não há espanhol que não diga “muito obrigado” enquanto muitos estrangeiros conseguem chegar a Portugal pensando que “gracias” chega para as encomendas.

Os espanhóis que cá vêm tratam-nos de igual para igual. Os americanos são infantis mas são bem-educados. Só os alemães nos tratam com sobranceria como se tivéssemos sido criados para servi-los.

“Coitados”, pensei, “são selvagens, não sabem comportar-se. Tanto podiam estar na Grécia como na Tunísia”.

Explicaram ao homem — em inglês — que não havia mesas, que era sábado, era Verão, era preciso reservar.

O homem retirou-se com um grunhido. Fiquei chocado. Disse-o a um dos empregados, que calmamente largou a bomba H: aquela besta daquele homem já mora em Portugal há 30 anos.

Há outros alemães — e são sempre alemães — que cá moram há 30 anos e que têm atitudes e comportamentos insuportáveis. Mas, pelo menos, aprenderam a falar umas palavras de português. A superioridade imaginária deles é ridícula mas pode ser contestada — e eles dispõem-se a defender-se, permitindo a discussão e até a cordialidade.

Felizmente, são só os alemães com mais de 60 anos de idade. Sendo mais velhos, só se salvam os aristocratas. É como a própria Alemanha: melhorou imenso em pouco tempo.

De que outro país se pode dizer a mesma optimista coisa?